Do Espaço ao Estereótipo: Identidades Culturais no Urbanismo,  na Natureza e no Colonialismo Sob a Forma de Arte Moderna

Jieling Liu
27 abril de 2016

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Resumo

Este relatório tem função como apresentar a exposição As Casas na Coleção do CAM do Centro de Arte Moderna, que pertence à Fundação Calouste Gulbenkian, um dos excelentes espaços culturais em Lisboa. A exposição mostra as obras artísticas dos artistas como Gil Heitor Cortesão, Pedro Casqueiro, Waltercio Caldas, Thomas Weinberger, Leonor Antunes e mais. Juntamente com pinturas, objetos, vídeos, fotografias e esculturas, a exposição relembra as pessoas a ver e sentir o espaço onde moram dia a dia, tenta criar um diálogo entre os viventes e o ambiente da vivência.

Palavras-chave: Casa. Interação. Cultura. Relação. Existência. Exposição. Arte Moderna.

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As Casas na Colecção do CAM
Exposição de grupo, CAM Gulbenkian Foundation, Lisbon
Curadores: Isabel Carlos e Patrícia Rosas
Novembro 20, 2015 – Outubro 31, 2016
Fotografias: Autor

Introdução

Todos nós temos uma casa. Alguns têm mais do que uma. A casa, um lugar onde despertamos, nos arranjamos, comemos, tomamos banho, divertimo-nos, reunimos, partilhamos e descansamos, é um espaço onde nós gastamos metade da vida. Neste espaço expomos a nossa vulnerabilidade, a nossa necessidade subconsciente; também libertamos a nossa tristeza, a preocupação, o desejo mais secreto. A nossa casa é uma localidade onde interagimos com objetos – os utensílios, as plantas, o ar, as cadeiras, as mesas e as camas, até as paredes; relacionamo-nos com as dimensões e as cores, com o cheiro, a luz e a textura. 

Screen Shot 2016-08-01 at 17.34.17.pngNo entanto, esquecemo-nos frequentemente da importância da nossa casa, tomamo-la por garantida. Não nos lembramos que um quarto sem janela poderia ser abafado e o chão de madeira nos ajudaria a procurar a tranquilidade.

As Casas na Coleção do CAM existe precisamente para nos relembrar a existência e o que significa a casa para nós. A exposição mostra as obras excelentes de artistas como Gil Heitor Cortesão, Pedro Casqueiro, Waltercio Caldas, Thomas Weinberger, Leonor Antunes e mais. A exposição faz-nos ver, sentir, ressoar com o espaço, faz-nos pensar o que nos fazem estes lugares, cenários e os momentos passados lá dentro. A visita foi feita pela autor no dia 17 abril. A exposição permanece até 29 agosto de 2016.

Em Superfície Plana

Gil Heitor Cortesão nasceu em Lisboa em 1967, é hoje um dos convidados frequentes das galerias modernas em todo o mundo, incluindo o Museu Calouste Gulbenkian. Tem tido exposições pessoais e de grupos em Lisboa, no Porto, São Paulo, Paris, Madrid e Dubai. Estreou na Galeria Módulo já em 1988, antes de terminar a licenciatura em Artes Plásticas e Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa em 1990. Muitas das suas obras procuram a relação harmoniosa entre as partes dum espaço arquitetónico ou urbano, através de detalhes enriquecedoras.

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Sem Título (1998), Gil Heitor Cortesão

Nesta peça Sem Título (1998), o artista apresentou um ambiente retro. Entre os mobiliários vermelhos e o chão (incluindo o teto) verde, Cortesão não esconde a sua preferência do estilo estético dos anos 60 e 70. As cores escalonadas parecem mostrar um salão deslumbrante, porém o vazio e as manchas de tinta revelam só um facto: as pessoas já saíram. O cenário florescente já não está presente.

O pintor Pedro Casqueiro dedica-se à Península Ibérica, principalmente à sua terra Portugal. O artista nasceu em 1959, formou-se pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Realizou a sua primeira exposição em 1981, ainda enquanto era aluno. Hoje é considerado um dos mais importantes pintores levantados da época 80.

Casqueiro tende a usar linhas para representar os seus temas, normalmente através das grandes pilhas de linhas retas ou curvas, quer produza um efeito paralelo, quer de conflito, com o intuito de destacar a presença do espaço. A maioria das suas obras não chamam a atenção do público pelas cores brilhantes, mas apresentam um equilíbrio elegante das cores semelhantes.

Screen Shot 2016-08-01 at 17.34.40.pngGaleria (1997), Pedro Casqueiro

Com a peça Galeria (1997), o artista provavelmente quer enfatizar o elemento que nós normalmente nunca vemos num espaço desses – não há apenas obras artísticas mas também existe o espaço! São precisamente as paredes, os caixilhos, os pilares, a janela e a porta que tornam a exposição possível. Sem eles, não haverá as obras de pintura, nem o público ou o flash de câmaras.

Objeto de Pé

Waltercio Caldas tem títulos como escultor, desenhista, artista gráfico e cenógrafo. Nasceu no Rio de Janeiro em 1946, começou a ter interesse pela arte na adolescência e profissionalizou-se no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a partir de 1964. Ao longo do tempo, tornou-se cada vez mais criativa e diversificada nos museus do seu país e os Bienais internacionais, através das obras como desenhos, objetos, fotografias, videos, esculturas e instalações.

Screen Shot 2016-08-01 at 17.34.51.pngEspelho C (2005), Waltercio Caldas

Este objeto Espelho C (2005) é feito de aço inoxidável e consiste em 4 enquadramentos retangulares de forma semelhante, mas de tamanhos diferentes. Parece que são enquadramentos iguais mas não são. Cada um tem um bico em lugares diferentes. É possível que Caldas tente expressar a idea de que as coisas não têm a mesma aparência quando se veem de ângulos diferentes; ou seja, de um nível mais profundo – as pessoas de diferentes culturas não interpretam o assunto da mesma forma. Contudo, os enquadramentos são interligados. Isto é outro ponto – as versões de leitura cultural podem ser distintas mas partilham uma parte comum. Com os bicos extendendo-se liberalmente no ar, Caldas provavelmente quer mostrar o aspeto estatístico do mundo, como todas as criaturas no universo, quer os animais, quer as plantas, até o ar, estão sempre em processo de mudança.

Dois Flashes

O fotógrafo alemão Thomas Weinberger é bem sucedido na sua carreira por ter ido à escola de arquitetura e, por conseguinte, ter desenvolvido sentidos apurados para retratar os edifícios. Além de fotógrafo, também é arquiteto freelancer e palestrante convidado da Faculdade de Belas Artes da Universidade de New South Wales em Austrália.

De acordo com Joe Hallock, Weinberger usa uma técnica muito especial nas suas fotografia — normalmente ele tira uma foto de dia e outra exatamente do mesmo sítio à noite. A combinação dos pormenores entre a luz e a escuridão traz à obra um estilo surrealista.

Screen Shot 2016-08-01 at 17.35.14.pngMuseu Calouste Gulbenkian, Thomas Weinberger

Nesta exposição é razoável dizer que Weinberger apresentou o seu trabalho “para agradar ao empregador”. O Museu Calouste Gulbenkian na câmara dele parece transparente, visto que o fundo distante também é claramente visível. Com este efeito, o fotógrafo deu ao edifício do Museu não apenas a luminosidade mas também um sentido de leveza. Hoje em dia, com a urbanização  engolindo cada vez mais o nosso ambiente natural, a construção do Museu é um exemplo refrescante. Isto não apenas pelos patinhos no jardim, o destaque verdadeiro é a maneira do Museu co-existir tranquilamente com a natureza ao redor, assim o Museu não é um fardo tão pesado para o ambiente. A fotografia de Weinberger mostra perfeitamente este aspeto. 

Madeira e o Colonialismo

Botânica#3. #5. #6. #11 (2012-2014) é uma obra do artista lisboeta Vasco Araújo. De facto é uma peça da sua própria cadeira – ele tirou o curso de Escultura na Universidade de Lisboa, logo aperfeiçoou-se na Escola Maumaus de Belas Artes e Fotografia na área de Artes Plásticas. Araújo tem participado em diversas exposições individuais e festivais em Portugal e no estrangeiro, incluindo Lisboa, Paris, São Paulo, Palma de Mallorca, Funchal, Boston, Moscovo e Veneza.

De acordo com o thepowerplant.org,  os trabalhos de Araújo examinam temas como a representação histórica, a construção da identidade, os estereótipos de etnia e de gênero.

Screen Shot 2016-08-01 at 17.35.33.pngBotânica#3. #5. #6. #11 (2012-2014), Vasco Araújo

Nesta obra, o artista usou várias mesas de madeira, fotografias digitais, molduras de madeira e metal para relembrar a parte forte da história portuguesa – o colonialismo. Cada mesa apresenta uma colónia. Através das árvores frondosas e tranquilas, não é difícil perceber, essas terras eram tão encantadoras para os portugueses. As fotografias claramente mostram a excitação dos colonizadores e o sofrimento dos povos locais.

Cama de Saudades 

A pintora portuguesa Ana Vidigal concluiu o Curso de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa em 1984. Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian (1985 – 1987). Ela começou a ter exposições individuais e colectivas desde 1981 e é uma artista muito prolífica.

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Penélope (2000), Ana Vidigal

Com a peça Penélope (2000), Vidigal evoca o período do colonialismo, ou o período antes da revolução, quando o pai dela teve de fazer a tropa e ficou longe do resto da família. A obra é uma cama feita com as cartas que os seus pais, a “Excelentíssima Senhora, Dona Maria Beatriz de Vidigal Vieira” e o “Excelentíssimo Senhor, Capitão Miliciano Egas Vidigal Vieira”  trocaram.

Durante uma entrevista com Anabela Mota Ribeiro, Vidigal explicou o nome e o significado desta peça. “Eu queria pegar no assunto da guerra colonial.”. “A conotação da cama é fortíssima. Fala-se dos homens que foram para a guerra, mas fala-se pouco das mulheres que ficaram à espera dos seus maridos, que podiam voltar ou não.”. E for por isso que Vidigal decidiu o nome Penélope, como a esposa inteligente e fiel de Ulisses na mitologia grega. Para ela, a força da guerra tem a seguinte expressão: a ausência do seu pai e a presença constante em cartas.

Observações Finais

A exposição As Casas na Colecção do CAM apresenta várias obras dos artistas domésticos e internacionais cujos focos estão colocados nos espaços e objetos interiores, através das quais os artistas tentam expressar as suas interpretações sobre a integração e a evolução da cultura ao longo da história em espaços distintos, quer urbano, quer natural.

Numa maneira geral, o espetáculo chegou a revelar o tema principal. No entanto, o que as peças contam individualmente é demasiado disperso para se juntar e fortalecer numa mesma direção. Aliás, os objetos não estão tão bem posicionados, estão um pouco em desordem, na opinião da autora.

Em resumo, As Casas na Colecção do CAM é uma boa iniciativa para relembrar às pessoas o conceito de espaço e o seu papel cultural na nossa vida no passado e no presente. 

Referências

Gil Heitor Cortesão – Biography. Disponível em: https://www.artsy.net/artist/gil-heitor-cortesao [Consultado em 24 abril de 2016]

Artigos de apoio – Pedro Casqueiro. http://www.infopedia.pt/$pedro-casqueiro [Consultado em 24 abril de 2016]

Camões, I. P. Os Anos 80. Disponível em: http://cvc.instituto-camoes.pt/decadas/anos-80.html#.Vx0Yk5MrIfE [Consultado em 24 abril de 2016]

http://www.galeriaclima.com.br/portu/artista.asp?cod_Artista=103&WaltercioCaldas [Consultado em 24 abril de 2016]

Biography. http://www.thomas-weinberger.de/biography.htm [Consultado em 24 abril de 2016]

J. Hallock. The Photography of Thomas Weinberger. 14 novembro de 2016. Disponível em: http://www.joehallock.com/?p=95 [Consultado em 25 abril de 2016]

J. Paoli. Vasco Araújo: Under the influence of Psyche. Disponível em: http://thepowerplant.org/Exhibitions/2014/Summer/Vasco-Araujo–Under-the-Influence-of-Psyche.aspx [Consultado em 25 abril de 2016]

Artist Talk – Vasco Araújo. http://thepowerplant.org/ProgramsEvents/Programs/Lectures-Talks/Vasco-Araujo.aspx [Consultado em 25 abril de 2016]

Ana Vidigal. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Vidigal [Consultado em 25 abril de 2016]

A. Mota Ribeiro. Ana Vidigal é pintora e nunca lhe passou pela cabeça ter filhos. 12 julho de 2010. Disponível em: https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ana-vidigal-e-pintora-e-nunca-lhe-passou-pela-cabeca-ter-filhos-1446411 [Consultado em 25 abril de 2016]

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