A Alma da Culinária Portuguesa

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A meu ver, o peixe é o ingrediente mais essencial na culinária portuguesa. De todos os países da União Europeia, Portugal possui o maior consumo de peixe per capita: 61 kg/ano, seguido pela Espanha, Finlândia e França, com 41, 34 e 31kg/capita/ano, respetivamente. A data vem de uma consecutiva observação entre 1994 e 1998 do Departamento de Pesca e Aquicultura das Nações Unidas.[1] O consumo de peixe em Portugal é bastante elevado.

Ainda assim, houve um período em que os portugueses comeram mais peixe do que agora – nos anos 60, o pico tocou 70kg/capita/ano. Certos anos depois da Revolução em 1974, o mar ficava tranquilo. Por falta de atividades de pesca, os portugueses comeram mais carne. Contudo, o vício de comer peixe é difícil de perder. Ao longo das últimas décadas, os polvos, o bacalhau, as sardinhas foram levados mais uma vez a mesa portuguesa, sem muitas reformas como na economia ou no sistema política. “Vamos comer um bacalhau com natas antes de votar.”

É fácil perceber o peixe como um dos principais alimentos para os portugueses: mais de 70% da superfície terrestre em Portugal é água. É como o ditado: come-se o que se tem ao seu redor. Na verdade, a obsessão dos portugueses pelo peixe esforçou-se de forma significativa durante os descobrimentos marítimos. Como a grande ambição era para descobrir novas terras e aplicar o poder português onde tivesse colonizado, a pergunta então surgiu: “qual é a melhor mensagem para enviar aos índios e aos africanos?” A resposta foi óbvia e a mais razoável: já que tinham conquistado o mar, tinham mais direito de comer peixe e comê-lo como quisessem. O que foi apenas parte dos hábitos quotidianos tornou-se uma marca forte da identidade portuguesa. O facto de estar em fora da sua terra fez os marinheiros e missionários portugueses herdar em ainda mais o gosto pelo peixe. Além disso, a extrema dificuldade durante as viagens marítimas também tornou os navegadores mais determinados em lutar contra o que estava a desafiá-los, por exemplo, os “monstros marinhos”. Claro que não existem essas criaturas, mas o processo de encontrá-los e descrevê-los foi precisamente o que contribuiu para a nossa ciência natural que aprendemos hoje em dia.

A imagem do peixe também é apresentada e bem integrada nos outros símbolos portugueses – nas calçadas (que estão praticamente em todo o lado), nos azulejos (veja lá na cozinha do Restaurante do Museu Nacional do Azulejo) e nas canções de Amália Rodrigues (Caldeirada, por exemplo), entre outros tipos de arte portuguesa.

A alface poderia ser uma planta abundante mas nem cobre mais terras fora de Lisboa, as vinhas não se estendem sem os nutrientes do solo do Rio Douro, e o borrego não se ensopa sem a companhia do pão alentejano. O conceito de “Família” é substancial para os portugueses, contudo, até que o cheiro de peixe saia da cozinha, a família não está verdadeiramente reunida.

cozinha no meseu nacional de azulejo.jpga cozinha do Restaurante do Museu Nacional do Azulejo

As espécies de peixe mais consumidas pelos portugueses, de acordo com a TVi24, um canal televisivo privado do país, são o polvo, a sardinha, os cantarilhos, o atum, o peixe-espada (preto) e o bacalhau.[2] Além de ser uma escolha rica em proteína e ter pouco gordura, o peixe também é uma fonte bastante boa para nos acrescentar minerais, tais como cálcio, ferro e fósforo, bem como elementos vestigiais e vitaminas. A rica posse em iodo e ácidos gordos poliinsaturados, particularmente aqueles que são atribuídos para reduzir o colesterol no sangue, fazem o peixe ainda mais desejável na mesa.[3]

Sardinha-Assada.jpgSardinha Assada

Nas 7 maravilhas da gastronomia portuguesa que foram anunciadas no Festival Gastronómico de Santarém em setembro de 2011, a Sardinha Assada destacou-se  na categoria de Peixe como o prato preferido pelos portugueses, de acordo com a visao.sapo.pt.[4] E o prato favorito do Cristiano Ronaldo também não é segredo para ninguém. De acordo com o GloboEsporte.com,[5]  aquilo que ele mais gosta é o Bacalhau à Brás – um bacalhau bem desfiado com batata palha e envolto com ovos e cebola. É um prato delicioso, e que todos os portugueses adoram. Quando o meu amigo André voltou a visitar Portugal após meses de emigração, admitiu que tinha muitas saudades do peixe de cá. Claro, é porque ele escolheu um país que tem o menu mais breve do mundo. “Sinto-me como um traficante cada vez que levo bacalhau para lá.” Brincou ele.

Em termos de biodiversidade, Portugal tem uma variedade de vida marinha como nenhum país na união europeia tem, o que é uma dádiva divina da natureza. Conquanto, o excessivo consumo de peixe está a criar controvérsia: será que estamos a prejudicar o planeta por comermos demasiado peixe? O jornal Público revelou que entre os países do Mediterrâneo, Portugal necessita o maior espaço produtivo para matar a fome.[6] Cerca de 1,5 hectares de terra ou mar são necessários para garantir o fornecimento de alimentos a cada um dos portugueses, enquanto a Grécia carece 1,22 hectares e a Espanha necessita apenas 1,15. Tal resultado faz uma grande carga para o ecossistema. Comer peixe, pelo lado da saúde, é positivo, mas, a preferência dirigida às espécies como o bacalhau e o atum, que estão no topo da cadeia alimentar do oceano e que requerem mais recursos para se desenvolver, está a causar prejuízo.

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Em resumo, o peixe é imprescindível para a mesa portuguesa, por isso também faz parte da identidade national. A crescente variedade de alimentos não influenciou o persistente gosto de peixe pelos portugueses, pelo contrário, o consumo tem sido estimulado pela perseguição de alimentos com bons nutrientes. Afinal, o peixe é uma delícia sempre. Hoje em dia, com a sustentabilidade do ecossistema do mar sendo ameaçada pelo excessivo consumo de peixe, é, além de boa vontade, uma obrigação que nós devemos fazer – ser um consumidor responsável. Só com a nossa consciência, podemos continuar a aproveitar esta delícia em Portugal e outras partes do mundo.

Referências 

[1] Fish consumption and markets for catfish and tilapia in the European Union. Disponível em: http://www.fao.org/docrep/006/y5324e/y5324e0j.htm [Consultado em 25 de agosto de 2016]

[2] Os peixes preferidos dos portugueses. 8 de junho de 2010. Disponível em: http://www.tvi24.iol.pt/polvo/sardinha/os-peixes-preferidos-dos-portugueses [Consultado em 25 de agosto de 2016]

[3] Consumption of Fish and Shellfish and the Regional Markets. Disponível em: http://www.fao.org/docrep/t5897e/t5897e03.htm#1.1 nutritional benefits of fish and shellfish [Consultado em 26 de agosto de 2016]

[4] Conheça os sete pratos preferidos dos portugueses. 8 de setembro de 2011. Disponível em: http://visao.sapo.pt/actualidade/visaose7e/conheca-os-sete-pratos-preferidos-dos-portugueses=f603613 [Consultado em 26 de agosto de 2016]

[5] M. Paulucci. Top 5: cozinheiro de CR7 revela os pratos preferidos do craque português. 28 de abril de 2015. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/mg/noticia/2015/04/top-5-cozinheiro-de-cr7-revela-os-pratos-preferidos-do-craque-portugues.html [Consultado em 27 de agosto de 2016]

[6] R. Garcia. Consumo de peixe em Portugal é dos mais prejudiciais ao planeta. 29 de outubro de 2015. Disponível em: https://www.publico.pt/ecosfera/noticia/consumo-de-peixe-aumenta-pegada-ecologica-de-portugal-1712677 [Consultado em 27 de agosto de 2016]

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